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Savasana: a postura mais desafiadora

Savasana? Mas essa não é aquela postura deitada, a do relaxamento, no final da prática? Isso mesmo. E eu quero mostrar aqui como e porque ela é uma das mais importantes e desafiadoras posturas de Yoga, se não a mais.

Geralmente colocado ao final da prática, muitas pessoas menosprezam esse momento, por achar que ele se trata de um simples relaxamento. Savasana (pronuncia-se shavasana), ou postura do cadáver, tem na verdade o objetivo de permitir ao praticante entrar no estado de yoganidra, ou sono do yoga, um momento não só de relaxamento, mas principalmente de restauração consciente. É o momento de deixar o corpo absorver os benefícios dos asanas, dos pranayamas e dos mudras. Em outras palavras, é permitir que a natureza faça o seu trabalho depois que você já fez o seu. 

Falando em termos mais práticos, savasana é o meio pelo qual você vai transformar o cansaço físico da execução das posturas em qualidade de presença para a meditação e para a vida. Ou seja, savasana é o ponto de transformação mais profundo da sua prática de Yoga.

Em todas as outras posturas, existem diretrizes específicas para corrigir o alinhamento e manter o asana de forma consciente, sem lesões. Mas e em savasana? 

Esqueça as ações musculares, esqueça o alinhamento, esqueça a respiração e os bandhas. A palavra chave aqui é entrega. Savasana é a mais pura materialização deste conceito. De olhos fechados, com o corpo completamente exposto e entregue ao chão, com a mente em uma atitude de profunda entrega e aceitação, não podemos evitar de entrar em contato com uma camada mais profunda da nossa existência, que muitas vezes está oculta sob um grosso véu de atividades mentais desnecessárias.  

Nós estamos vivendo em um mundo que exige atividade, rendimento, porque tempo é dinheiro. Por causa disso, dividimos a nossa existência supervalorizando as atividades mentais e racionais e negligenciando o nosso bem estar holístico, relegando os cuidados com o corpo e a mente, quando muito, ao estritamente necessário e meramente funcional. 

Não é nada fácil não pensar, ou pelo menos atingir um estado de serenidade mental. É algo que se consegue naturalmente depois de muito tempo persistindo e insistindo. Entretanto, não é algo que consiga praticar ativamente. Durante as posturas e pranayamas você foca nas ações do corpo e da respiração para desviar a atenção da mente, embora sua mente esteja de alguma forma trabalhando em cima das ações do corpo. Em savasana, você simplesmente solta tudo e entrega.

Infelizmente, a maioria das pessoas nesse momento não se permite entrar nesse estado de entrega, ou porque não conseguem passar da barreira sufocante dos pensamentos, e acabam se tornando parte ativa na correnteza, ou porque se rendem aos encantos do subconsciente e acabam dormindo.

Ambos os caminhos acima são sintomáticos da atitude de supervalorização do mental em detrimento do todo, da qual falei anteriormente. O primeiro, de não conseguir relaxar os pensamentos, é simplesmente a volta ao padrão mental de sempre. O segundo, o de relaxar tanto a ponto de dormir, é, por outro lado, um sintoma do cansaço de estar sempre alerta e funcionando acima do nível ótimo.

É por isso tudo que savasana é tão difícil. O ponto de transformação reside justamente em deixar que o equilíbrio aconteça naturalmente. Mas como fazer para encontrar esse ponto? Como encontrar o caminho do meio, de estar relaxadamente consciente?   

Para aqueles que são imediatistas, a resposta a princípio parece desanimadora: você não pode fazer nada. Tem que ser natural. E para que isso se torne natural, você precisa simplesmente confiar e deixar acontecer. Precisa aceitar que nada está sob controle. A necessidade de controle é uma ilusão. Você pode e deve fazer o melhor possível durante as posturas e os pranayamas, mas sem expectativas de conseguir isso ou aquilo. Simplesmente faça o que tem que ser feito da melhor maneira possível. E é só isso! Foque nas ações necessárias, com a mente no presente, e na hora de entrar em savasana, pegue toda a necessidade de controle e jogue para o alto. Essa é única ação necessária neste momento.

Se a ação de abrir mão de tudo ainda não é palpável para você, então começe praticando em savasana a imobilidade total do corpo. Coloque toda a força da sua vontade em permanecer com o corpo completamente imóvel, a mente desperta, ambos completamente relaxados e conscientes

Foque em cada parte do corpo completamente entregue à gravidade. Relaxe principalmente sua mandíbula, seus lábios e pálpebras. Entregue sua respiração e seus pensamentos ao ar. Pegue toda a tensão, toda a necessidade de controle, e bote pra fora através de uma expiração bem longa e profunda pela boca. E relaxe. :)

Namastê _/\_

Créditos da Imagem: Spireality

soteropolitana, estudante de vedanta, formada em design gráfico, criadora, autora e ilustradora do respire e seus yoginhos. acredita que ser feliz é coisa simples e que yoga é para todos.

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